Assumindo a responsabilidade

Era uma vez um rapaz, um índio miserável, que vivia entre os brancos de uma cidade. Não tinha casa, não tinha parentes, não tinha amigos. Foi para a cidade fazer foturna e só encontrou miséria e dor. Às vezes ele conseguia alguma coisa, mas quase não dava para nada, e ele tinha que mendigar ou roubar para comer.
Um dia o rapaz foi à feira. Ficou tão doido de ver todas as coisas boas que estavam ali que não via onde passava, acabou por tropeçar numas cestas caindo por cima de um velho.
O velho carregava quatro cabaças enormes, e tinha acabado de sentar para descansar e comer. O velho achou estranho o rapaz ter tropeçado nele. Não ficou zangado, e sim preocupado com o motivo que teria levado o rapaz a cair em cima dele. Mas o rapaz ficou zangado, e mandou o velho sair do seu caminho. Não estava preocupado com o significado daquele encontro.
As cabaças do velho caíram e estavam rolando pela rua. Quando o rapaz viu aquilo, achou que era uma possibilidade de comer naquele dia. Ajudou o velho e insistiu em ajudá-lo a carregar as cabaças. O velho estava à caminho de sua casa nas montanhas e o rapaz insistiu em ir com ele ao menos até parte do caminho. Os dois começaram a caminhada, e o velho deu a ele parte da comida que tinha comprado na feira. O rapaz comeu bastante e quando ficou satisfeito, reparou o peso das cabaças e as agarrou com força.
O rapaz perguntou ao velho o que ele levava nas cabaças, mas o velho não lhe respondeu, disse apenas que as estava levando para um companheiro ou amigo que poderia aliviar as aflições dele e lhe dar conselhos sábios acerca das coisas do mundo.
O velho chamou o veado mais lindo que o rapaz já vira, tão manso que chegou perto dele, andando em volta. Ele reluzia. O rapaz logo percebeu que se tratava de um veado espírito. O velho lhe disse que, se ele quisesse ter aquele amigo e a sua sabedoria, bastaria que largasse as cabaças.
O rapaz perguntou mais uma vez o que havia nas cabaças, e ele respondeu que só havia comida e água.
O rapaz não acreditou. Ele imaginou que, se o velho estava disposto a dar o veado pelas suas cabaças, estas deveriam ter um poder inacreditável.
O rapaz preferiu, então, ficar com as cabaças. Ele as pegou, correu para um lugar isolado e as abriu. Quando percebeu que nelas havia somente comida e água, despedaçou-as junto às pedras.
O rapaz não assumira a responsabilidade por sua decisão, e ficou zangado pelo seu engano.
"Se ele tivesse consciência de sua decisão e assumisse a responsabilidade por ela, teria tomado a comida e ficado mais do que satisfeito com ela. E talvez até tivesse compreendido que aquela comida também era poder."

De um dos livros de Castaneda, só não me lembro de qual é.

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