A Literatura Francesa
Podemos dividir a França, em termos de literatura, em duas regiões: sul e norte. A parte sul era menor que a do norte em geografia e literatura e teve melhor desenvolvimento nos séculos XII, XIII e XIV, daí o fato da literatura da parte do norte ter tido maior repercussão que a provençal.
Inspirados no sistema feudal, onde a proteção mútua (um homem pertencendo a outro homem: de baixo para cima, os fracos procurando proteção; de cima para baixo, os fortes procurando pessoas para trabalhar e lutar por eles) parecia ser a solução para a instabilidade da época, os poetas do sul da França desenvolvem a idéia do amor cortês (o amante perfeito = o vassalo perfeito). São nobres, cavalheiros e reis que cultivavam a música e a poesia como diversão. Chamavam "troubadours" (trouver: inventar ou achar) os poetas e os jongleurs, que eram bons na recitação e nos cantos, os intépretes.
O tema do canto era sempre o "amor lírico". Estes cantos eram variados, alguns simples e bastante populares, outros mais "requintados". Os poetas preocupavam-se com a forma do verso e com as narrativas em forma de poema (devendo grande parte a eles a disseminação de romances pela Europa).
Os nobres que não compunham mantinham trovadores em suas cortes e também festejavam os de outras. Porém, no século XIII, quando tais nobres viram-se arruinados pela guerra, os poetas migraram sua poesia para a Espanha e para a Itália, pois esta era sustentada justamente pelas cortes feudais.
O mais conhecido entre os poetas provençais foi Frederico Mistral.
Enquanto o sul era a terra do canto, o norte revelou-se como a terra da narrativa romântica. Os correspondentes dos "troubadours" provençais eram os "trouvères" (menos amadores que os primeiros, e menos musicais também). A poesia do norte da França teve maior duração que a do sul, influenciando também os outros povos europeus.
As poesias francesas dignas de nota aparecem nas chansons de geste, que significa canto de feitos e aventuras. São poesias épicas, tendo como tema os feitos de cavaleiros andantes ou de reis heróicos. Existiam vários tipos de chansons, desde nacionais e patrióticas nas "matéria de França" (pois em sua verdadeira origem diziam respeito à história da França); até as relacionadas com outros povos, como as "matéria de Roma" (que tratavam de reis mitológicos e de heróis reais do passado) e as "matéria da Bretanha" (que falam sobre o rei Artur e seus cavaleiros).
No ciclo de Carlos Magno, geste de Charlemagne, podemos citar em torno do ciclo central: Guillaume d'Orange, Aimeri de Narbonne, Enfances Ogier, Berte aux grands pieds, Elie de Saint-Gilles, Fiebras. Nos ciclos referentes às lutas feudais, que também mostram um Carlos Magno menos simpático, temos Doon de Mayence, Renauld de Montauban, Raoul de Cambrai, Girart de Roussillon. As Cruzadas estão em Enfances Godefroy, Chevalier au Cygne e na Chanson d'Antioche.
O ciclo Antigo é a sobrevivência de certas lendas greco-romanas, em que seus heróis tornam-se cidadãos medievais. São más versões dos contos de Virgílio e Homero (e a Idade Média ignorava as epopéias deste último).
O ciclo bretão tem origem celta, e destacam-se as histórias sobre o rei Artur e seus heróis relacionados. A versão original deste mito está em Mabinogion (na língua do País de Gales), em que os personagens estão compostos pela imaginação céltica. Foi redigido no século XIV, já apresentando os cavaleiros como franco-normandos. Em História Britonum, de Nennius (historiador latino do século VIII), Artur torna-se herói dos celtas britânicos e inimigo dos invasores anglo-saxões.
Depois de desenvolvida na França, a história sobre o rei Artur ganha episódios e versões em diversas regiões da Europa medieval.
Elas entraram na Inglaterra em língua francesa. Sua versão mais antiga está em Brut de Layamon (crônica do século XIII), a qual seria precursora de Rei Lear de Shakespeare. Na segunda metade do século XV, a Morte de Artur é compilada por Thomas Malory. Em Idylls of the King de Tennyson, Artur parece um rei inglês e a lenda perde o seu valor céltico.
Também misturam Artur com lendas que não tinha nenhuma relação com ele. Mostram Artur casado com a rainha Guinevere, que por sua vez o trai com Lancelote; fala-se sobre a queda da sua corte e sua morte por Mordred. Associam esse rei ainda com histórias com sentido cristão, onde, ao invés deste ir para a ilha de Avalum, inserem na história o Santo Graal (cálice com que João colhera o sangue de Cristo, símbolo de perfeição – clara fusão de paganismo e cristianismo). Este cálice só poderia ser tocado por pessoas com a pureza irmã com a de Cristo, como foi o caso de Gawain, Galahad e Percival (o Parsifal de Wagner, verdadeiro herói para os franceses e alemães). Ainda neste contexto religioso, os Cavaleiros da Távola Redonda transformaram-se em uma "irmandade de cruzados místicos". Outra história associada, mas com um enfoque diferente, é a de Tristão e Isolda. Esta é uma das lendas mais populares da Europa. Foi contada na França por Joseph Bédier, tratada em Tristan of Lyonesse de Swinburne (poeta lírico inglês) e na ópera de Wagner. Também surgiram histórias sobre o cavaleiro que rivalizava com Lancelote: Gawain, como podemos ver em Gawain e o Cavaleiro Verde.
Uma chanson considerada obra-prima é a Chanson de Roland. Ele, Roland, foi uma personagem que existiu realmente, era um cavaleiro de Carlos Magno, consagrado por ter preferido a morte à trair seus companheiros, inclusive o próprio Carlos Magno e, acabando em morte junto a seu primo Oliver. No seu último momento, ele lança sua manopla a Deus. Essa história ganhou várias versões até a renascença e foi bastante popular na Itália, onde se fez assunto de Orlando Furioso de Ariosto.
Além de histórias sobre heróis, a literatura francesa ainda desenvolveu mais três tipos de poesias de grande talento imaginativo. As fablieu, ou fábulas, eram contos de animais que nunca perderam a popularidade, até os dias de hoje. O Romance da Raposa é um bom exemplo. Esses "fablieaux" não possuem nenhuma alusão à vida dos homens. Outra é a alegórica, moralista ou didática, tendo como característica falar sobre virtudes ou vícios abstratos. O Romance da Rosa fala sobre o amor e tem um leve espírito satírico, tendo sido escrito por dois poetas: Loris e – duas gerações depois – Jean de Meung. O trabalho de Meung, segundo um crítico francês, era uma prévia da literatura que estava por vir. E enfim, o último tipo de poesia era a lírica, característica da literatura medieval como um todo, que desenvolviam-se em todas as classes sociais. Tinha-se, inclusive, reis cantores, dentre os quais Thibault IV Champagne (França), Ricardo Coração de Leão (Inglaterra) e Afonso X, o Sábio (Espanha).
Dois poetas franceses que merecem destaque são Marie de France e Chrétien de Troyes:
Marie viveu durante a maior parte da sua vida na Inglaterra, provavelmente fazendo parte da corte da rainha Eleanor (de origem provençal). Nos lais desta poeta, a história sobre Tristão e Launfal quase transforma-se em contos de fadas. Desses lais existem várias versões, como por exemplo a feita por Artur O'Shaunessey.
Chrétien de Troyes viveu em Champagne na segunda metade do século XII. Sua importância deu-se no desenvolvimento das histórias sobre o rei Artur, e tem como obras Cavaleiro de Leão (Iwain), Enrico e Enida e Cavaleiro do Carro.
Um grande mestre da prosa francês, também considerado um grande historiador, é Froissart. Escreveu "Cronicas", que data do século XIV. É um dos melhores romances de cavalaria. Lord Beners o traduziu e o integrou à literatura inglesa.
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