A Literatura Italiana

    A Itália, que permanecia esquecida na literatura medieval, no século XIV antecipa-se na literatura moderna mais do que o resto da Europa, talvez por ser a continuação direta da literatura latina (segundo Carducci), quando surge o "trecento", também chamado de dolce stil novo.
    Este período inicia-se cronologicamente no século XIII com os mestres de Dante, Guinizelli e Cavalcanti. Dante e Petrarca continuam a mesma linha, e Boccaccio acrescenta um requintamento psicológico e um certo sexualismo grosseiro. O "trecento" pode ser considerado, basicamente, como poesia de amor.
    Dentro deste estilo, existiam três classes literárias: os intelectuais, os burgueses (representado por Cecco Angiolieri, que era moderno nas expressões e medieval em sua sinceridade) e os ascetas (como por exemplo Catarina de Siena, a "noiva mística de Cristo", que escreveu a melhor prosa deste estilo).
    Vale salientar que o amor, assim como fora tratado na poesia provençal, era algo completamente novo, embora tenha se tornado lugar-comum com o seu uso através da história. No trecento, este sentimento evolui de conceito e se torna um sentimento religioso e um pensamento filosófico simultaneamente.
    A alegoria, que já era comum na literatura medieval, será ainda mais freqüente, e também aparecerá novas formas de estrofes até chegar ao nosso soneto.

 
    Os maiores gênios que a Itália já produziu estão justamente neste período, e são eles Dante, Petrarca e Boccaccio.
    Dante é um poeta quase espiritualista. Em sua obra, Divina Comédia, cria, através da terza rima, todo um "cosmo", no qual expressa o ambiente em que vive, suas visões sobre política, e seus amores, eternizando os seus contemporâneos e revivendo personagens antigos. Nos leva, do inferno, passando pelo purgatório, até o céu pelo que seria o "cammin di nostra vita". Na Espanha do século XV, Dante serviu de inspiração para Fransico Imperial, Enrique de Villena (que traduziu a Divina Comédia), Juan de Mena e o Marquês de Santillana. Andreu Febrer traduziu a Divina Comédia para o catalão. Na França e na Alemanha, só encontramos alguns vestígios de Dante até o século XIX.
    Petrarca será o primeiro poeta inteiramente pessoal das literaturas modernas. Sua poesia, infelizmente, parece a mais gasta de todo o mundo, justamente por ter tido suas expressões e metáforas repetidas e copiadas muitas vezes. Mas, no entanto, em sua época ele pode ser considerado um verdadeiro revolucionário. No século XV, Petrarca teve um discípulo catalão, Auzias March. O Marquês de Santillana também se inspirava nele. Teve alguns tradutores anônimos na França, mas só passa a exercer grande influência no século XVI, com Boscán e Garcilaso de La Veja, Sá de Miranda e Camões, Rosard e Du Bellay, Wyatt, Surrey e Spenser. Já a sua influência no século XVI é indireta, existindo mais por conta dos petrarquistas italianos.
    O burguês Boccaccio, na realidade era francês, mas todas as suas características literárias o tornam italiano. As suas obras revelam um tom um tanto "jocoso", pois ele mesmo parece não levar qualquer coisa a sério. Ele inspirou o inglês Chaucer, com quem compartilhava quase o mesmo temperamento. Também se torna o autor mais traduzido do século XV. Sua influência na França faz no século XV Diego de San Pedro imitar uma de suas obras e chegar ao romance psicológico. E, no século XVI, Marguerite de Navarre escreve Heptaméron. No mesmo século, alemães imitam-no, mas em contos grosseiros.

 
    Embora estes três grandes poetas tenham vivido na mesma região, na mesma época e seguido o mesmo estilo, desenvolveram características bastante peculiares, tanto que não podem ser considerados como uma "trindade literária".
    A falta de sincronismo da época faz a literatura do século XIV não perceber o "trecento" italiano, fazendo com que este estilo só tenha o seu valor realmente reconhecido mais tarde.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas